A Doutrina da Igreja: Reformadores versus Anabatistas

 

A Doutrina da Igreja:

Reformadores versus Anabatistas

Por Ernest Pickering





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Prefácio

 

O presente livreto é tradução de excertos de um subitem do Capítulo 3 – Separatism and The Anabaptists, parte do livro BIBLICAL SEPARATION: THE STRUGGLE FOR A PURE CHURCH1 (SEPARAÇÃO BÍBLICA: A LUTA POR UMA IGREJA PURA), de autoria de Ernest Pickering.

 

Os batistas fundamentalistas independentes não concordam cem por cento com Pickering, especialmente com seu entendimento sobre associações de igrejas em um corpo de diretoria denominacional. Porém ressaltamos que, neste livro, Pickering faz um tratado excepcional sobre a história das igrejas locais em busca de pureza doutrinária e, este item em especial, traz alguns importantes esclarecimentos.

 

Acreditamos que, pela graça de Deus, será de edificação bíblica para muitos pastores, irmãos e igrejas locais independentes. Não devemos, porém, deixar de enfatizar que a doutrina da igreja universal (católica) invisível tem sido uma grande e forte motivação de alguns pecados em particular, praticados e que colocam em sérias dificuldades algumas igrejas independentes que lutam por permanecerem fiéis, tais como: ausência de separação bíblica, inclusivismo emergente, ausência de disciplina eclesiástica – principalmente com suas lideranças, ceia inclusiva multidenominacional (aberta/livre), envolvimento com associações, convenções e ligas,   fortes apego a seminários defensores de criticismo textual e defesa do texto crítico, denominacionalismo estruturado (nicolaísmo), dentre outros que lhes são subsequentes.

 

Em português foi preferida a utilização do termo “católica” ao invés de seu sinônimo “universal”, por se adaptar melhor à contextualização da época em que ocorreram as perseguições aos Anabatistas, embora devamos entender que ambas as palavras são uma única e a mesma definição que compõem a doutrina antibíblica da igreja universal invisível.

 

I

Pontos De Vistas Dos Principais Reformadores Em Relação À Igreja

 

Particularmente na área da eclesiologia, os Anabatistas discordaram fortemente de Calvino, Lutero e dos outros reformadores.

 

Os principais reformadores acreditavam que a igreja católica invisível incluía todos os verdadeiros crentes. Muito provavelmente eles tenham herdado essa ênfase na igreja católica invisível de Agostinho, que achou este um conceito útil ao buscar contradizer os Donatistas.

 

Quanto à igreja visível, os principais reformadores defenderam obstinadamente o conceito de que tanto os crentes quanto os incrédulos estavam incluídos nela e que era errado procurar corrigir a situação.

 

Berkhof tem uma análise penetrante da posição de Lutero:

 

“Sua insistência [de Lutero] na invisibilidade da Igreja serviu para negar que a Igreja católica é essencialmente uma sociedade externa com um cabeça visível [o papa], e de afirmar a essência da Igreja é encontrada na esfera do invisível...”2

 

Lutero defendia uma sociedade eclesiástica externa que incluía:

 

“...o número ou a multidão de batizados e crentes que pertencem a um sacerdote ou a um bispo, seja em uma cidade, ou em uma terra inteira ou no mundo inteiro”.3

 

O acesso a esta igreja visível, de acordo com os reformadores, ocorria por meio do batismo infantil.

 

Embora os reformados divergissem quanto aos detalhes do significado do batismo, eles concordaram nesse ponto – as crianças deveriam ser batizadas. Eles ensinaram, exceto Zwinglio, que o batismo era um sacramento, conferindo graça aos seus receptores.

 

“Em oposição aos Anabatistas, que colocaram a ênfase do sacramento em seu próprio ato em oposição ao ato de Deus e viram no batismo nada além de um sinal de que o novo nascimento já havia ocorrido, e consequentemente rejeitaram o batismo infantil, Lutero manteve o direito e a necessidade do batismo infantil. As crianças devem ser batizadas tanto quanto os adultos, pois o batismo é essencial para a salvação”4.

 

Um dogma dos Reformadores é especialmente difícil para muitos cristãos modernos entenderem. Eles acreditavam que a igreja visível deveria ser defendida pelos poderes civis. Como já havia sido dito, eles se apegaram firmemente a uma relação interligada entre a igreja e o estado.

 

“O príncipe deve tolerar em seu reino apenas a Igreja Única da Palavra pura”5.

 

 

II

Pontos De Vista Dos Anabatistas Em Relação À Igreja Local.

 

Anabatistas sentiram ou, melhor, perceberam em seu entendimento Bíblico que a ênfase do Novo Testamento estava na igreja visível, nas congregações locais. Eles não aceitaram as tentativas dos Reformadores de escapar das implicações do Novo Testamento de uma igreja reunida (livre) fugindo para a doutrina da igreja católica invisível.

 

“Os Anabatistas não estavam satisfeitos com a distinção dos Reformadores entre uma igreja visível, que é terrena e impura, e uma igreja católica invisível, que é celestial e pura. Sua preocupação prática era a atualização de um corpo visível e verdadeiro de Cristo na Terra, que deveria estar de acordo com o padrão do Novo Testamento. Eles fizeram uma distinção afiada, entretanto, entre a ‘igreja verdadeira’, pela qual eles se referiam, e a ‘igreja do anticristo’, pela qual eles se referiam à Igreja Romana”6.

 

Os Anabatistas rejeitaram completamente o conceito da igreja estatal estabelecida, “substituindo o monopólio da igreja estatal autoritária e compulsória por congregações locais independentes e voluntárias...”7

 

Houve outro ponto de discordância também. Os Reformadores tinham um conceito muito mais amplo da composição da igreja local do que os Anabatistas. Como se observou, Zwinglio estava “disposto a assumir que todos em Zurique eram, em certo sentido, Cristãos”. Os Anabatistas, entretanto, chegaram a concluir “que tal ideia de ‘igreja em massa’ é estranha ao conceito de igreja local descrita e definida pelo Novo Testamento”8.

 

Em uma de suas declarações doutrinárias, a Confissão de Schleitheim (1527), os Anabatistas declararam: “O batismo deve ser dado a todos os que aprenderam e verdadeiramente passaram pelo arrependimento e pela renovação de vida ... a todos os que andam na ressurreição de Jesus Cristo”9. Não podemos deixar de citar o bom resumo das distinções de Bender.

 

“Mas a característica mais marcante da contribuição Anabatista, seguindo-se inevitavelmente de seu conceito de discipulado, é sua insistência em uma nova igreja de crentes verdadeiramente comprometidos e praticantes, em contradição com o conceito prevalecente da ‘Volkskirche’ [igreja do povo], ou igreja inclusiva da Reforma e de períodos subsequentes, mantidos por católicos e protestantes... igualmente, com uma igreja mantida pelo poderoso patrocínio do Estado, e a qual, por nascimento e batismo infantil, toda a população pertencia. Grebel e seus associados viram esta questão claramente e ousaram desafiar Zwinglio diretamente sobre ela ... Zwinglio ... deliberadamente rejeitou o clamor dos Irmãos Suíços por uma igreja local formada por crentes verdadeiros e, então, Zwinglio estabeleceu “uma igreja em que todos os cristãos professos, o nominal mornos e indiferentes, assim como os cristãos realmente vivos e ativos são mantidos juntos, uma igreja à qual toda a população pertence e que não é a igreja de crentes genuínos, mas apenas a instituição humana imperfeita”10.

 

Naturalmente, com base nas informações já citadas, os Anabatistas defendiam tenazmente a doutrina da separação da igreja e do Estado. Essa foi uma das principais razões pelas quais eles foram considerados tão heréticos em seus dias. Com a ênfase deles, no entanto, eles abriram o caminho para a introdução da liberdade religiosa em anos posteriores e em outras terras.

 

 III

Apostasia e Separatismo

 

Para nossa consideração, uma das mais importantes crenças dos Anabatistas a respeito da igreja foi a “queda” ou “ruína” da igreja.11 Eles acreditavam que a igreja professa havia decaído da verdade - apostatado - e que a restauração das igrejas verdadeiras era necessária. Eles diferiam entre si a quando a essa “queda” teria ocorrido. Alguns sentiam que não teria havido nenhuma igreja verdadeira por séculos.12

 

Muitos pareciam defender que a apostasia se instalou com o reinado de Constantino. Pilgrim Marpeck, um influente líder Anabatista, acreditava que a ruína da igreja começou com a aceitação do batismo infantil.

 

Muitos deles, senão a maioria, concordavam que haviam existido igrejas verdadeiras espalhadas por toda a “Babilônia” (a igreja estatal apóstata) durante todos estes séculos.

 

Eles viam as marcas da queda como sendo: a dependência do Estado, o espírito de condescendência13 da época, a aceitação de falsas doutrinas, tais como a Missa e o batismo infantil, e a negligência geral em relação à verdade bíblica.

 

O que, à luz desta apostasia, era o dever de um cristão obediente? Os anabatistas não ficavam tímidos em responder a essa pergunta. Eles achavam que uma verdadeira igreja Neo Testamentária poderia ser estabelecida “somente depois que uma separação decisiva da Igreja Romana estabelecida fosse realizada”14...

 

Menno Simons, em uma seção de um de seus escritos intitulada “O Dever de Fugir de Babilônia”, observou:

 

“Também ensinamos e admoestamos por meio da Palavra de Deus que todos os filhos genuínos de Deus, nascidos de novo da semente viva e incorruptível da Palavra divina... devem, de acordo com as Escrituras, se afastar de todos os pregadores sedutores e idólatras em relação às falsas doutrinas, sacramentos e adoração. Eles devem evitar todos os que, por qualquer crença, doutrina, seita ou nome, não permanecem na pura doutrina de Cristo...”15

 

Certo estudioso do movimento Anabatista observou:

 

“Ao revisar os registros, o leitor fica impressionado com a consciência aguda dos Anabatistas sobre a separação da igreja ‘decaída’ - em que eles incluíam tanto os Reformadores, assim como a instituição Católica Romana”16.

 

Numerosas declarações de Anabatistas ressaltam suas convicções quanto à separação da apostasia. A Confissão de Schleitheim17, elaborada pela Conferência dos Irmãos Suíços, em fevereiro de 1527, foi escrita principalmente por Michael Sattler.

 

“Estamos de acordo [como segue] sobre a separação: uma separação será feita a partir deles e da maldade que o diabo plantou no mundo; desta maneira, simplesmente que não teremos companheirismo com eles na multidão de suas abominações... Pois verdadeiramente todas as criaturas estão em apenas duas classes, boas e más, crentes e incrédulas, trevas e luz... O templo de Deus e os ídolos, Cristo e Belial; e nenhum pode ter parte com o outro.

 

Para nós, o mandamento do Senhor é claro quando Ele nos conclama a sermos separados do mal e assim Ele será o nosso Deus e nós seremos Seus filhos e filhas.18

 

Ele nos adverte ainda para nos retirarmos da Babilônia e do Egito terrestre para que não sejamos participantes da dor e do sofrimento que o Senhor trará sobre eles.

 

A partir disso, devemos aprender que tudo o que não está unido ao nosso Deus e a Cristo não pode ser outra coisa mais a não ser uma abominação da qual devemos fugir. Por todas estas coisas abomináveis entendem-se todas as obras dos papas e antipapas e invenções humanas e sacramentos da igreja Romana, reuniões e frequência à igreja Romana... De todas essas coisas devemos ser separados e não ter parte com eles, pois eles não são nada além de uma abominação...”19

 

Os Anabatistas acreditavam tanto na separação pessoal da impiedade quanto na separação da apostasia. Às vezes, os dois conceitos eram combinados em seu uso do termo “separação”. Dietrich Philips, ao discutir as várias marcas (ordenanças) de uma igreja verdadeira, escreveu.

 

“A quarta ordem é a separação evangélica, sem a qual a congregação de Deus não pode permanecer ou ser mantida”20.

 

Por suas posições separatistas, eles eram severamente criticados pelos líderes da Reforma. Conrad Grebel, um dos líderes Anabatistas suíços, escreveu em uma carta em 1524:

 

“Cristo deve sofrer mais em seus membros... Os líderes reformadores ...estão tão furiosos e enfurecidos contra nós que eles nos atacam do púlpito, chamando-nos de meninos e anjos de Satanás [disfarçados de] anjo de luz ... Não aja, ensine ou construa qualquer coisa de acordo com as noções humanas, suas ou de outras, e se isso  está estabelecido, que seja abolido. Exponha e ensine a Palavra e o culto a Deus de forma clara”.21

 

 

 

Conclusão

 

Os Anabatistas deram uma grande contribuição ao contínuo testemunho separatista. Reconhecemos suas fraquezas (não tentamos enumerar todos elas aqui). Nós também saudamos sua força e robustez. Em geral, quando sua doutrina da igreja local era impopular, eles não se esquivavam de declará-la e praticá-la. Do seu exemplo corajoso, os separatistas modernos devem obter encorajamento.

 

 

 

 

 

 

Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. – Efésios 5:17

 

 

 

 

 

 

 

 

Tradução e adaptação Pr Miguel Maciel

Com revisão 01 em agosto 2018.

Esta revisão 02 em abril 2026.

Todas as referências bíblicas originais são da King James Bible 1611 e para esta tradução a Almeida Corrigida e Fiel ao Texto Original publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas e Referências Bibliográficas

________________

Pickering, Ernest D. Biblical Separation: The Struggle For A Pure Church. (Regular Baptist Press. Schaumburg, Illinois. 1979).

 2 Berkhof, Louis. History of Christian Doctrine. (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1959). p. 243.

3 Ibid., p. 244.

E. H. Klotsche, The History of Christian Doctrine (Burlington, IA: The Luteran Literary Board, 1945)., p 182.

5 Ibid., p. 187.

Erland Waltner, “The Anabaptist Conception of The Church”, The Mennonite Quartely Review, XXV (January 1951)..

7 Claus Peter Clasen, Anabaptism: A Social History, 1525-1618 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1972)., p. 211.

8 John L. Ruth, Conrad Grebel: Son of Zurich (Scottdale, PA: Herald Press, 1975)., p.128.

Durnbaugh, The Believers’ Church, p. 73

10 Harold S. Bender, Conrad Grebel: Sob of Zurich (Scottadale, PA: Herald Press, 1971), p. 211.

11 Para uma boa discussão sobre este assunto, Pickering recomenda: Frank Wray, “The Fall of The Church” em “History in the Eyes of The Sixteen Century Anabaptists” (dissertação de doutorado, Yale University, 1953)., pp. 167-206.

12 Segundo Pickering, essa era a posição de Frank Wray e recomenda  Sebatian Franke, “A Letter of John Campanus”, Spiritual And Anabaptist Writers, ed. George H. Williamns (Philadelphia: The Westminster Press, 1957)., p. 149.

13 Nota do tradutor (não de Pickering): Para um estudo muito sério e excelente sobre a tolerância romanista às próprias heresias, a permissividade vergonhosa da época e a perseguição aos verdadeiros crentes, recomendo “A Mulher Montada na Besta” - Volume 1, de Dave Hunt. Actual Edições. 2001.

14 John Oyer, ”The Reformers Oppose the Anabaptist Theology”, The Recovery of The Anabaptist Vision., p. 206.

15 Menno Simons, The Complete Writing of Menno Simons, realiz. Leonard Verduin, ed. John C. Wenger (Sctottdale, PA: Herald Press, 1956)., pp. 158, 159.

16 Littell, The Anabatist View of The Church., p. 79.

17 Suíça.

18 Ver: 2 Coríntios 6:14 a 18.

19 John C. Wenger (ed.), “The Schleitheim Confession of Faith”, Appendix III, Glimpses of Mennonite History and Doctrine (Scottdale, PA: Herald Press, 1940), p. 209.

20 Dietrich Philips, “The Church of God”, Spiritual and Anabaptist Writers, p. 246 .

21 John C. Wenger (realiz.), Conrad Grebel’s Programmatic Letters of 1524 (Scottdale, PA: Herald Press, 1970), p. 41.

 

 



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